Por um lugar ao Sol
O site Por um Lugar ao Sol é a extensão do livro-reportagem “Por um Lugar ao Sol” e da comunidade no Orkut “Respeito às travestis e trans”. Aqui, traremos notícias, debates e entrevistas sobre o universo trans de uma maneira diferente.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Assim como transexual Ariadna no BBB, 1ª travesti a participar de reality show no Brasil também foi a 1ª eliminada
Com uma participação comemorada e meteórica, a cabeleireira Ariadna Thalia disse adeus ao sonho do prêmio máximo do Big Brother Brasil 11 na noite de terça-feira, 18. Primeira transexual a participar do reality show da Rede Globo, ela acabou sendo a primeira eliminada logo na primeira semana de jogo. Fato curioso é que a primeira travesti a participar de um reality show no Brasil, em 2004, também foi eliminada na primeiríssima semana. Trata-se de Bianca Soares, que esteve na Casa dos Artistas 4, edição em que Silvio Santos prometia escolher o novo protagonista de novelas do SBT. Mas as semelhanças das garotas não param por aí: além da fórmula copiada das pegadinhas do Mallandro, a rejeição de tal presença revela que, de lá para cá, o preconceito contra transgêneros - o mesmo que culminou tais eliminações - não mudou em nada.
PÚBLICO SABIA DE TUDO ANTES: No reality show do SBT, Bianca adiantou a trajetória que Ariadna apresentaria na Rede Globo. A curitibana entrou no programa sem nem tocar na palavra “travesti”. De rosto delicado, voz feminina e corpão, ela pisou na Casa de Silvio Santos anunciada somente como uma mulher (assim como Ariadna) e casada (!). E por lá permaneceu assim para todos os concorrentes. O que nem Bianca nem Ariadna poderiam esperar (ou poderiam!) é que a imprensa fosse agir rapidamente e revelar que elas eram um dos Ts do LGBTT. Um dia após a estréia do reality show, as palavras “travesti” e “transexual” já estavam estampadas em todos os jornais; acompanhadas de fotos bem íntimas das duas participantes em anúncios de programa. Na época, Bianca usava no nome Kaylane para diferenciar a vida de trabalho da vida particular. Ariadna apostava em um novo visual (antes era loiríssima em sites internacionais). Nada adiantou. Em um piscar de olhos, todo o passado estava sob o paredão crítico do público conservador.
TRANS NO ARMÁRIO: Assim como Ariadna, a travesti manteve-se em silêncio e não revelou em nenhum momento sua verdade. E somente um participante – o ator Dudu Gonçalves – é que desconfiou de alguma coisa. Mas não comentou. No BBB, os coloridos Daniel e Lucival suspeitavam que a cabeleireira era transexual (devido ao palavreado bastante utilizado no meio gay) e foi para eles (só para eles) que a bela revelou antes de sua emocionante eliminação. A permanência no armário – tida por muitos como uma orientação dos diretores; embora ambas não confirmem – culminou em vários questionamentos preconceituosos. Afinal, para muita gente, o simples fato de amar, cortejar, beijar ou admirar uma travesti ou uma transexual (sem saber de tal condição) pode ser interpretado como motivo de vergonha ou chacota. A revista Ti Ti Ti anunciou em sua capa: “Bomba! Bianca é travesti! Alguém precisa avisar o Ale (Manas, que posteriormente foi capa da Gmagazine)”, que demonstrava interesse pela gata.
AMOR POR TRANS: Sim, ocorreu um beijo na Casa dos Artistas – durante uma prova que avaliava o desempenho dos atores – mas não foi exibido. Bianca também parecia pouquíssimas vezes, muitas delas como figurante. Por que? Porque a figura da travesti frente ao machismo brasileiro ainda serve apenas para a chacota, como a pegadinha do Sergio Mallandro, como se tais figuras femininas fossem uma armação, uma mentira, uma farsa. O que na vida prática não é. Elas são de fato figuras femininas 24h, em todos os momentos, por mais que ostentem algum traço ou outro masculino. Ao contrário de Ariadna, que já mudou todos os documentos (e realizou a cirurgia de transgenitalização), a verdade do que é Bianca não está estampada no RG. O lado positivo é que Ale, ao sair da Casa, confessou o beijo e disse que na vida de um ator não há espaço para preconceitos. Já no BBB, cogitaram até processar Ariadna por danos morais, caso beijasse algum homem, já que estava empolgada com a ideia.
INCOMODOU: Embora Ariadna tenha saído em paz com todos os concorrentes, assumida e aplaudidíssima, o mesmo não ocorreu com Bianca. Ela foi indicada à eliminação pelo desempenho na prova de talento, mas também seria pela votação dos participantes e pela votação do público pela Internet. Houve um buxixo que, ao descobrirem que Bianca era travesti, muitos patrocinadores (preocupados com o “telespectador família”) do programa exigiram sua eliminação. E o circo estava armado de todos os lados, mesmo. Durante o programa, a travesti se emocionou ao falar com a mãe pelo telefone, que dizia estar orgulhosa (Ariadna também se emocionou quando viu o pai na platéia). Mas ao ser eliminada, catou suas coisas e foi embora sem se despedir de ninguém. “Não estou acostumada a viver com outros seres humanos”, resumiu. Apesar de Bianca estar envolvida em uma briga na primeira semana, não há dúvidas de que sua eliminação precoce esteja arraigada ao preconceito, manifestado nas enquetes na Internet logo na estréia do programa e em algumas revistas (A poderosa Veja chegou a dar o título: Estranho no Ninho), bem como Ariadna.
VIDA PÓS-REALITY: Ariadna quer posar nua, deixar de fazer programa, abrir um centro de estética, aproveitar ao máximo a fama que o Big Brother proporcionou. Esperamos que ela tenha grandes oportunidades e que não caia nos estereótipos. Bianca, por exemplo, sonhou, mas não conseguiu ser protagonista de novela (aliás, nenhum dos competidores conseguiu; nem o vencedor, foi uma palhaçada). As portas abertas para ela – além dos programas de televisão que não rendiam dinheiro no bolso - foram dos filmes pornográficos. Na carreira, a atriz estrelou mais que 5 (A Boneca da Casa, Sodomizada, Contos de Bianca), inclusive um com o ator Alexandre Frota. Quase dois anos depois, conseguiu finalmente papel de destaque na série Mandrake, exibida pela HBO, em que contracena com Marcos Palmeira, além de estar na paródia “O Infeliz”, do programa Show do Tom, Record, e posar nua para a revista Man.
REPESCAGEM: Por quê não? Na Casa dos Artistas, Bianca voltou algumas semanas depois para revelar que é travesti aos concorrentes (desta vez em clima de total harmonia), onde ficou como convidada por mais uma semana, alavancando a audiência da emissora. Essa seria uma boa estratégia para o diretor Boninho inovar nesta edição: assim como outros países, promover a respescagem de ex-brothers e pescar novamente a grande novidade desta edição, a sereia Ariadna.
PÚBLICO SABIA DE TUDO ANTES: No reality show do SBT, Bianca adiantou a trajetória que Ariadna apresentaria na Rede Globo. A curitibana entrou no programa sem nem tocar na palavra “travesti”. De rosto delicado, voz feminina e corpão, ela pisou na Casa de Silvio Santos anunciada somente como uma mulher (assim como Ariadna) e casada (!). E por lá permaneceu assim para todos os concorrentes. O que nem Bianca nem Ariadna poderiam esperar (ou poderiam!) é que a imprensa fosse agir rapidamente e revelar que elas eram um dos Ts do LGBTT. Um dia após a estréia do reality show, as palavras “travesti” e “transexual” já estavam estampadas em todos os jornais; acompanhadas de fotos bem íntimas das duas participantes em anúncios de programa. Na época, Bianca usava no nome Kaylane para diferenciar a vida de trabalho da vida particular. Ariadna apostava em um novo visual (antes era loiríssima em sites internacionais). Nada adiantou. Em um piscar de olhos, todo o passado estava sob o paredão crítico do público conservador.
TRANS NO ARMÁRIO: Assim como Ariadna, a travesti manteve-se em silêncio e não revelou em nenhum momento sua verdade. E somente um participante – o ator Dudu Gonçalves – é que desconfiou de alguma coisa. Mas não comentou. No BBB, os coloridos Daniel e Lucival suspeitavam que a cabeleireira era transexual (devido ao palavreado bastante utilizado no meio gay) e foi para eles (só para eles) que a bela revelou antes de sua emocionante eliminação. A permanência no armário – tida por muitos como uma orientação dos diretores; embora ambas não confirmem – culminou em vários questionamentos preconceituosos. Afinal, para muita gente, o simples fato de amar, cortejar, beijar ou admirar uma travesti ou uma transexual (sem saber de tal condição) pode ser interpretado como motivo de vergonha ou chacota. A revista Ti Ti Ti anunciou em sua capa: “Bomba! Bianca é travesti! Alguém precisa avisar o Ale (Manas, que posteriormente foi capa da Gmagazine)”, que demonstrava interesse pela gata.
AMOR POR TRANS: Sim, ocorreu um beijo na Casa dos Artistas – durante uma prova que avaliava o desempenho dos atores – mas não foi exibido. Bianca também parecia pouquíssimas vezes, muitas delas como figurante. Por que? Porque a figura da travesti frente ao machismo brasileiro ainda serve apenas para a chacota, como a pegadinha do Sergio Mallandro, como se tais figuras femininas fossem uma armação, uma mentira, uma farsa. O que na vida prática não é. Elas são de fato figuras femininas 24h, em todos os momentos, por mais que ostentem algum traço ou outro masculino. Ao contrário de Ariadna, que já mudou todos os documentos (e realizou a cirurgia de transgenitalização), a verdade do que é Bianca não está estampada no RG. O lado positivo é que Ale, ao sair da Casa, confessou o beijo e disse que na vida de um ator não há espaço para preconceitos. Já no BBB, cogitaram até processar Ariadna por danos morais, caso beijasse algum homem, já que estava empolgada com a ideia.
INCOMODOU: Embora Ariadna tenha saído em paz com todos os concorrentes, assumida e aplaudidíssima, o mesmo não ocorreu com Bianca. Ela foi indicada à eliminação pelo desempenho na prova de talento, mas também seria pela votação dos participantes e pela votação do público pela Internet. Houve um buxixo que, ao descobrirem que Bianca era travesti, muitos patrocinadores (preocupados com o “telespectador família”) do programa exigiram sua eliminação. E o circo estava armado de todos os lados, mesmo. Durante o programa, a travesti se emocionou ao falar com a mãe pelo telefone, que dizia estar orgulhosa (Ariadna também se emocionou quando viu o pai na platéia). Mas ao ser eliminada, catou suas coisas e foi embora sem se despedir de ninguém. “Não estou acostumada a viver com outros seres humanos”, resumiu. Apesar de Bianca estar envolvida em uma briga na primeira semana, não há dúvidas de que sua eliminação precoce esteja arraigada ao preconceito, manifestado nas enquetes na Internet logo na estréia do programa e em algumas revistas (A poderosa Veja chegou a dar o título: Estranho no Ninho), bem como Ariadna.
VIDA PÓS-REALITY: Ariadna quer posar nua, deixar de fazer programa, abrir um centro de estética, aproveitar ao máximo a fama que o Big Brother proporcionou. Esperamos que ela tenha grandes oportunidades e que não caia nos estereótipos. Bianca, por exemplo, sonhou, mas não conseguiu ser protagonista de novela (aliás, nenhum dos competidores conseguiu; nem o vencedor, foi uma palhaçada). As portas abertas para ela – além dos programas de televisão que não rendiam dinheiro no bolso - foram dos filmes pornográficos. Na carreira, a atriz estrelou mais que 5 (A Boneca da Casa, Sodomizada, Contos de Bianca), inclusive um com o ator Alexandre Frota. Quase dois anos depois, conseguiu finalmente papel de destaque na série Mandrake, exibida pela HBO, em que contracena com Marcos Palmeira, além de estar na paródia “O Infeliz”, do programa Show do Tom, Record, e posar nua para a revista Man.
REPESCAGEM: Por quê não? Na Casa dos Artistas, Bianca voltou algumas semanas depois para revelar que é travesti aos concorrentes (desta vez em clima de total harmonia), onde ficou como convidada por mais uma semana, alavancando a audiência da emissora. Essa seria uma boa estratégia para o diretor Boninho inovar nesta edição: assim como outros países, promover a respescagem de ex-brothers e pescar novamente a grande novidade desta edição, a sereia Ariadna.
Ariadna do BBB incomoda porque existe
Ariadna Thalia, 26 anos, a grande novidade do Big Brother Brasil, ganhou a triste liberdade na noite de terça-feira, 18. O motivo? A participante é uma cabeleireira transexual (a primeira), ex-garota de programa, desbocada e que, ao contrário do estereótipo LGBT alegre (um dos poucos atributos positivos que a mídia tende a dar aos coloridos), reclama da vida, tem olhar triste e faz questão de frisar as dificuldades que já vivenciou no Brasil (e na Itália).
Resultado: rejeição da maior parte dos telespectadores. Sim, embora Ariadna não tenha sofrido preconceito dos participantes (que sequer sabem de sua trajetória trans), muita gente torceu o nariz por ela NÃO DIZER que é uma mulher transexual, por não corresponder ao estereótipo da barraqueira ou fofoqueira e por saber antecipadamente de seu passado (sofrido, mas visto como de vida fácil por muita gente).
Antes de manifestarmos opinião sobre ela, sugiro rápidas indagações para uma auto-reflexão sobre a pessoa trans e o armário: Por que alguém que lutou a vida inteira para conquistar uma identidade de mulher (e conseguiu de todas as maneiras; com cirurgia, documentação, saída de casa precoce, preconceito) deva falar de um passado masculino que, talvez, a assombre? Será que todos os participantes abrem seu coração de imediato para pessoas que até então são desconhecidas? Ariadna já provou extrema sinceridade e humildade ao revelar aos participantes que trabalhou com programas sexuais (o que certamente outras sisters já fizeram, mas negariam até a morte), será justo que ela seja obrigada a revelar todas as suas dores e alegrias em APENAS uma semana?
Para aqueles que insistem que ela deveria estampar no peito a palavra “viado” (porque para muitos ela não passa de um; confundindo gênero com sexualidade), digo que suas declarações intimistas estavam sendo proclamadas em doses homeopáticas (como todos os participantes da casa), sempre com pessoas mais próximas, como Rodrigo, Talula e Jaqueline. Talvez ela precisasse de mais tempo para se soltar e dizer (ou não) que é uma mulher transexual. Nos últimos dias vivia dizendo: “tenho um segredo”, “vocês ainda vão ficar sabendo”,” tenho medo de sair porque existem coisas lá fora que vocês não sabem”. E no final, fez uma revelação emocionada: "Tenho orgulho de ser a primeira transexual do Brasil a participar do BBB"
O que coloco em questão (e esse talvez seja o motivo de sua rápida rejeição do público) é a necessidade de desqualificar a autenticidade de mulher de Ariadna. E isso está estampado na mídia, em dizeres como “ela/ele”, “que é homem”, “engana”, “gay”. O preconceito contra trans tem muitas faces, mas uma explicação – apontada pela cientista social Larissa Pelucio – é que a sociedade tende a ver uma trans como alguém que quer enganar, aquela pessoa que quer se passar por quem não é, como figura ilegítima, enganosa. Querem, portanto, que Ariadna diga que não é mulher, que é "ele", que é menos mulher que as outras mulheres. E como não disse, argumentam que não dariam o prêmio a uma farsa.
É por esse motivo que as pessoas se sentem muito tranquilas em procurar sinais de onde ela vai se trair, se entregar. “É na mão? É no pé? É o gogó? E nem se preocupam se isso vai ofender ou machucar” E automaticamente, quando constatam ser “alguém que engana”, recriminam de peito estufado, cheios de razão. Diego Alemão fez isso em seu programa no canal pago: disse que Ariadna não iria ENGANAR ninguém porque tem gogó.
Pergunto: Alguma mulher genética (que nasceu com sexo biológico feminino) gostaria de ter sua identidade feminina colocada em xeque? Imagine então como isso é para alguém que lutou muito por tal identidade. Vi uma blogueira de BBB (ex-atriz, ex-bem sucedida) dizer que, caso ela ficasse com alguém e não revelasse o seu passado, poderia ser processada por assédio moral. Como se beijar com uma transexual fosse motivo de chacota, algo vergonhoso, pegadinha.
Ariadna incomoda. E não é pelo seu jeito. Ariadna incomoda principalmente porque existe. Porque a sociedade ainda não sabe lidar com as diferentes formas de persona que aparentam até contemporâneas (mas são antigas), com as identidades conquistadas, com a felicidade alheia, com o rompimento de questões que estão fixadas em pênis e vagina, pelo machismo e transfobia.
E como incomoda, é marginalizada, eliminada, deve ficar longe. É por isso que muitas travestis trabalham à margem da sociedade, como garotas de programa. Lá, estão dentro de um mundo que as aceita melhor porque é escondido, também marginalizado, onde encontram outras iguais discriminadas, onde “ninguém” quer ver, mas muitos pais de família sentir. O problema é que temos a tendência de ver e comentar apenas o resultado de todo o processo, esquecendo os meandros do meio e o preconceito que nós mesmos carregamos.
Para quem se assustou, a eliminação de Ariadna não é novidade na televisão. Basta lembrar da primeira travesti a participar de um reality show – a Bianca Soares da Casa dos Artistas 4, Protagonistas de Novela, em 2004: foi a primeira eliminada na primeira semana com mais de 70% dos votos. E até da participação da drag-transexual Nany People em A Fazenda: em sua primeira roça na quinta semana... tchau!
Ou seja, enquanto não começarmos a observar uma travesti, uma transexual, uma transgênero, como figura legítima, como mais uma manifestação do comportamento humano e de suas identidades – com características femininas e masculinas naturais, e não como uma pegadinha do Sérgio Mallandro – dificilmente teremos uma evolução no pensamento sobre quem está a frente das convenções sexuais, nos direitos básicos e universais de todos e até nas reais chances de uma participante transexual vencer um reality show da Globo.
“Se alguém pergunta, falo: sou mulher. Porque eu sou uma mulher. Porque sempre foi meu sonho, sabe. Se alguém fala que duvida... Eu mostro: Toma aqui meu RG” (Ariadna, madrugada de segunda-feira, dia 17 de janeiro). Afinal, ser transexual é mais que uma escolha, é característica intrínseca. Ela é mulher (mulher transexual, que seja), e sempre foi. O que teve por alguns momentos entre as pernas nunca foi maior do que teve entre as orelhas, em seu pensamento, em sua verdade.
Resultado: rejeição da maior parte dos telespectadores. Sim, embora Ariadna não tenha sofrido preconceito dos participantes (que sequer sabem de sua trajetória trans), muita gente torceu o nariz por ela NÃO DIZER que é uma mulher transexual, por não corresponder ao estereótipo da barraqueira ou fofoqueira e por saber antecipadamente de seu passado (sofrido, mas visto como de vida fácil por muita gente).
Antes de manifestarmos opinião sobre ela, sugiro rápidas indagações para uma auto-reflexão sobre a pessoa trans e o armário: Por que alguém que lutou a vida inteira para conquistar uma identidade de mulher (e conseguiu de todas as maneiras; com cirurgia, documentação, saída de casa precoce, preconceito) deva falar de um passado masculino que, talvez, a assombre? Será que todos os participantes abrem seu coração de imediato para pessoas que até então são desconhecidas? Ariadna já provou extrema sinceridade e humildade ao revelar aos participantes que trabalhou com programas sexuais (o que certamente outras sisters já fizeram, mas negariam até a morte), será justo que ela seja obrigada a revelar todas as suas dores e alegrias em APENAS uma semana?
Para aqueles que insistem que ela deveria estampar no peito a palavra “viado” (porque para muitos ela não passa de um; confundindo gênero com sexualidade), digo que suas declarações intimistas estavam sendo proclamadas em doses homeopáticas (como todos os participantes da casa), sempre com pessoas mais próximas, como Rodrigo, Talula e Jaqueline. Talvez ela precisasse de mais tempo para se soltar e dizer (ou não) que é uma mulher transexual. Nos últimos dias vivia dizendo: “tenho um segredo”, “vocês ainda vão ficar sabendo”,” tenho medo de sair porque existem coisas lá fora que vocês não sabem”. E no final, fez uma revelação emocionada: "Tenho orgulho de ser a primeira transexual do Brasil a participar do BBB"
O que coloco em questão (e esse talvez seja o motivo de sua rápida rejeição do público) é a necessidade de desqualificar a autenticidade de mulher de Ariadna. E isso está estampado na mídia, em dizeres como “ela/ele”, “que é homem”, “engana”, “gay”. O preconceito contra trans tem muitas faces, mas uma explicação – apontada pela cientista social Larissa Pelucio – é que a sociedade tende a ver uma trans como alguém que quer enganar, aquela pessoa que quer se passar por quem não é, como figura ilegítima, enganosa. Querem, portanto, que Ariadna diga que não é mulher, que é "ele", que é menos mulher que as outras mulheres. E como não disse, argumentam que não dariam o prêmio a uma farsa.
É por esse motivo que as pessoas se sentem muito tranquilas em procurar sinais de onde ela vai se trair, se entregar. “É na mão? É no pé? É o gogó? E nem se preocupam se isso vai ofender ou machucar” E automaticamente, quando constatam ser “alguém que engana”, recriminam de peito estufado, cheios de razão. Diego Alemão fez isso em seu programa no canal pago: disse que Ariadna não iria ENGANAR ninguém porque tem gogó.
Pergunto: Alguma mulher genética (que nasceu com sexo biológico feminino) gostaria de ter sua identidade feminina colocada em xeque? Imagine então como isso é para alguém que lutou muito por tal identidade. Vi uma blogueira de BBB (ex-atriz, ex-bem sucedida) dizer que, caso ela ficasse com alguém e não revelasse o seu passado, poderia ser processada por assédio moral. Como se beijar com uma transexual fosse motivo de chacota, algo vergonhoso, pegadinha.
Ariadna incomoda. E não é pelo seu jeito. Ariadna incomoda principalmente porque existe. Porque a sociedade ainda não sabe lidar com as diferentes formas de persona que aparentam até contemporâneas (mas são antigas), com as identidades conquistadas, com a felicidade alheia, com o rompimento de questões que estão fixadas em pênis e vagina, pelo machismo e transfobia.
E como incomoda, é marginalizada, eliminada, deve ficar longe. É por isso que muitas travestis trabalham à margem da sociedade, como garotas de programa. Lá, estão dentro de um mundo que as aceita melhor porque é escondido, também marginalizado, onde encontram outras iguais discriminadas, onde “ninguém” quer ver, mas muitos pais de família sentir. O problema é que temos a tendência de ver e comentar apenas o resultado de todo o processo, esquecendo os meandros do meio e o preconceito que nós mesmos carregamos.
Para quem se assustou, a eliminação de Ariadna não é novidade na televisão. Basta lembrar da primeira travesti a participar de um reality show – a Bianca Soares da Casa dos Artistas 4, Protagonistas de Novela, em 2004: foi a primeira eliminada na primeira semana com mais de 70% dos votos. E até da participação da drag-transexual Nany People em A Fazenda: em sua primeira roça na quinta semana... tchau!
Ou seja, enquanto não começarmos a observar uma travesti, uma transexual, uma transgênero, como figura legítima, como mais uma manifestação do comportamento humano e de suas identidades – com características femininas e masculinas naturais, e não como uma pegadinha do Sérgio Mallandro – dificilmente teremos uma evolução no pensamento sobre quem está a frente das convenções sexuais, nos direitos básicos e universais de todos e até nas reais chances de uma participante transexual vencer um reality show da Globo.
“Se alguém pergunta, falo: sou mulher. Porque eu sou uma mulher. Porque sempre foi meu sonho, sabe. Se alguém fala que duvida... Eu mostro: Toma aqui meu RG” (Ariadna, madrugada de segunda-feira, dia 17 de janeiro). Afinal, ser transexual é mais que uma escolha, é característica intrínseca. Ela é mulher (mulher transexual, que seja), e sempre foi. O que teve por alguns momentos entre as pernas nunca foi maior do que teve entre as orelhas, em seu pensamento, em sua verdade.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Banheiro para trans? Não!
Momento constrangedor para muitas travestis, ir ao banheiro já foi motivo de dor de cabeça. Feminino ou masculino? De homem ou de mulher? Afinal, onde tudo é dividido em macho e fêmea, para onde vai alguém que está no meio de toda essa história?
Para mim parece óbvio: se você está vestida com trajes femininos, vai no banheiro feminino. Mas para muita gente isso não é tão claro. Dizem: mas elas tem pênis, mijam em pé e blá blá blá. Calma, calma. Vamos explicar...
Quando estamos diante de um banheiro público, quais são as imagens que vemos fixadas na porta? Uma menininha de saia, um rapaz com calça. Ou então, um chapéu feminino e uma cartola masculina. Alguém já viu o desenho de um pênis ou de uma vagina? Fale sério, sem contar aqueles feitos manualmente atrás da porta com intuito de brincadeira ou caça, alguém já viu alguma genitália para diferenciar?
Então é mais que obvio. Pessoas que estão com vestes femininas (e que se identificam como femininas) vão em um banheiro feminino. Pessoas que estão com vestes masculinas (e se identificam como figuras masculinas) vão no outro. É simples quando a gente desenha. Sem dores de cabeça ou mistérios.
Na Argentina, uma vereadora de San Martín propôs a instalação de um terceiro banheiro para travestis em danceterias. Ela alega que as mulheres se sentem constrangidas em dividir o mesmo espaço com as trans, e que os homens podem abusar sexualmente delas. Acho a iniciativa, apesar de bem intencionada, é uma furada.
Primeiro, acho uma bobagem dividir um banheiro por sexo ou por gênero, principalmente envolvendo a comunidade LGBT. Ou seja, mulheres lésbicas adorariam dividir apenas com mulheres. E os gays adorariam dividir apenas com gays. Segundo lugar: para que é feito um banheiro?
Como diz minha amiga travesti Janaina Lima: é para fazer o número 1, número 2, lavar as mãos e ir embora. Não é lugar para mulher ficar batendo papo, nem para homem caçar, nem para ninguém dar close. Volto a dizer: é para fazer coco, xixi, lavar as mãos e tchau. Não existe inconveniente.
Quanto às mulheres ficarem incomodadas, nos banheiros femininos o espaço para as necessidades fisiológicas delas é reservado, com porta e tal. Ou seja, a travesti chega, cumprimenta a raxa que está saindo, entra no reservado, faz xixi ou coco, sai do reservado, lava as mãos, cumprimenta a raxa que está entrando e vai embora.
Simples, fácil, sem complicações e tranquilo, não?
Para mim parece óbvio: se você está vestida com trajes femininos, vai no banheiro feminino. Mas para muita gente isso não é tão claro. Dizem: mas elas tem pênis, mijam em pé e blá blá blá. Calma, calma. Vamos explicar...
Quando estamos diante de um banheiro público, quais são as imagens que vemos fixadas na porta? Uma menininha de saia, um rapaz com calça. Ou então, um chapéu feminino e uma cartola masculina. Alguém já viu o desenho de um pênis ou de uma vagina? Fale sério, sem contar aqueles feitos manualmente atrás da porta com intuito de brincadeira ou caça, alguém já viu alguma genitália para diferenciar?
Então é mais que obvio. Pessoas que estão com vestes femininas (e que se identificam como femininas) vão em um banheiro feminino. Pessoas que estão com vestes masculinas (e se identificam como figuras masculinas) vão no outro. É simples quando a gente desenha. Sem dores de cabeça ou mistérios.
Na Argentina, uma vereadora de San Martín propôs a instalação de um terceiro banheiro para travestis em danceterias. Ela alega que as mulheres se sentem constrangidas em dividir o mesmo espaço com as trans, e que os homens podem abusar sexualmente delas. Acho a iniciativa, apesar de bem intencionada, é uma furada.
Primeiro, acho uma bobagem dividir um banheiro por sexo ou por gênero, principalmente envolvendo a comunidade LGBT. Ou seja, mulheres lésbicas adorariam dividir apenas com mulheres. E os gays adorariam dividir apenas com gays. Segundo lugar: para que é feito um banheiro?
Como diz minha amiga travesti Janaina Lima: é para fazer o número 1, número 2, lavar as mãos e ir embora. Não é lugar para mulher ficar batendo papo, nem para homem caçar, nem para ninguém dar close. Volto a dizer: é para fazer coco, xixi, lavar as mãos e tchau. Não existe inconveniente.
Quanto às mulheres ficarem incomodadas, nos banheiros femininos o espaço para as necessidades fisiológicas delas é reservado, com porta e tal. Ou seja, a travesti chega, cumprimenta a raxa que está saindo, entra no reservado, faz xixi ou coco, sai do reservado, lava as mãos, cumprimenta a raxa que está entrando e vai embora.
Simples, fácil, sem complicações e tranquilo, não?
Minh@ Amig@ Claudia

Div@ Wonder era coração e nervos. O rádio e gravador em frequencia máxima, sem medo de parar, cair ou pifar. Batalhadora pelo direito da liberdade, rompia sem medos os estereótipos sociais, exaltava a androginia, mas abominava os discursos vitimizantes. É daqueles ícones que só conhecemos em foto, numa história distante, mas que tive o privilégio de conhecer e ser amigo em vida. Acolheu-me em sua trajetória durante oito anos, tornando-se uma de minhas pernas, fazendo-me um ursinho sem mistérios. Em nossa última conversa disse: “Vai dar tudo certo. Não tenha medo de nada. O grande culpado de tudo que atrapalha nossa vida é o medo"
*****
“Ooooi meu amor”. Era assim que Claudia Wonder recebia-me todas às vezes em seu colorido apartamento, na Haddock Lobo. Sem maquiagem, salto, ou todo equipamento de festa, dava-me um beijo no rosto, um abraço apertado e já corria para seu quarto, dizendo todas as novidades dos últimos dias com sua conhecida voz grave. Eram detalhes de alguma homenagem, projetos, desavenças ou algum artigo que leu sobre transgêneros. Assunto nunca faltava e as horas ao seu lado corriam mais que depressa.
Como uma antena colorida que capta todos os sinais, conversávamos sobre todos os assuntos ao-mesmo-tempo-agora – família, amor, carreira, jornalismo, religião, noticiário, comunidade gay, travestis, transexuais, novela, filme (...) - até que do nada Claudia parava e perguntava preocupada “Está com fome? Já comeu?”, antes mesmo da minha barriga pensar em roncar. Às vezes simplesmente dizia: “Não tem nada na geladeira! Se vira! Pede uma pizza, vai no Habibs”.
Mas às vezes _ e isso me deixava extremamente feliz - se levantava e ia preparar algo em sua pequena cozinha. Houve um dia em que fez uma mistura óóóótima com o peixe que havia sobrado do jantar passado, legumes e uma farinha que não sei ao certo. Repetimos três vezes em meio às brigas, pedidos de desculpas e risadas. Pois é... tínhamos uma mistura de bate, assopra, canta, chora e gargalha.
Foram várias as noites que ultrapassamos conversando demasiadamente em sua grandiosa cama, às vezes assistindo novela, um filme ou documentário, até capotarmos de sono, sem que o assunto terminasse ou que déssemos conta de que o outro já estava dormindo há tempos. Nestes casos, Claudia dizia depois de uma grande pausa: “Neto?”. Eu: “Oi?”. “Boa noite, querido”.
E eu dormia até ser cutucado e acordado por ela, reclamando que eu roncava demais. Nos últimos tempos, senhorita Wonder até me enxotava para o baixíssimo sofá vermelho da sala. Dizia que um dos motivos que separou do marido era porque ele roncava muito. E eu ia pra lá, arrastando um cobertor, o travesseiro e o sono.
De manhã (e isso era antes das 8h) ela acordava cambaleando, ia ao banheiro, voltava ao quarto, ajoelhava-se ao pé da cama, rezava para seus anjos e depois ligava o rádio, com caixas de som no quarto e na sala. Sempre com músicas dos anos 80, ela improvisava alguma performance divertida, o que me fazia sorrir logo de manhã.
E enquanto ela preparava o café, eu aproveitava para tomar banho e, ao sair, ela aproveitava para me dar uma bronca por ter molhado o banheiro inteiro. Era sempre assim...
Quando decidíamos ir ao teatro (como no dia em que me apresentou a Rogéria), cinema (para assistir filmes de terror tailandes, o histórico Milk...), fazer compras no supermercado, ir ao posto de gasolina comprar sorvete, ver roupas na casa de um estilista, entre outros eventos corriqueiros, os olhares que caíam sobre nós eram de espanto.
Acho que nunca entenderam como gerações diferentes poderiam se dar tão bem (apesar de muitas vezes Claudia ser a parte jovem, e eu o antiquado). Como uma artista tão conhecida dava atenção para um jovem gordinho aspirante a jornalista de 17 anos? Ou o que fazia uma pessoa da minha idade interessar-se tanto por uma senhora travesti?
Mas Claudia dava muito mais que atenção a mim. Foi basicamente uma perna e um braço aqui em São Paulo, a mãe que eu não tive aqui na cidade. A pessoa que eu podia correr tranquilamente até a sua casa depois de um dia cansativo de trabalho, desabafar e levar bons puxões de orelha. E eu também brigava. Queria que ela aceitasse palestras, confirmasse presença nas exibições do seu documentário... tentava não deixar ela recusar nunca, embora hoje entendo que não era questão de preguiça. Ela já estava doente.
Sinceramente...acho que nunca levei tanta bronca quanto levei de Claudia. Eram puxões de orelha homééricos, que muitas vezes me deixavam sem dormir, chorar, e que faziam passar semanas sem ir até lá. Mas ela me ligava, como se nada tivesse acontecido, e dizia: “amizade é como uma plantinha. Se não regar, ela morre.” E no mesmo dia lá estava eu.
Consigo compreender que tudo não passou de uns “chacoalhões”. Aqueles que, se não fosse ela, a vida me daria. Afinal Claudia atuou como a grande conselheira, a grande incentivadora da minha carreira, preocupada com aquilo que aconteceria comigo e com minhas escolhas.
A Claudia que conheci não foi somente a das festas, eventos isolados, palestras, atos de militância, entrevistas e dos trabalhos. Conheci a Claudia pessoa. Aquela sem maquiagem, sapatos de salto e vestidos criativos. A Claudia frágil, carinhosa e brigona que, por trás de todas as companhias que sempre teve, sentia-se muito sozinha e acumulava grandes traumas familiares. A Claudia que ao se ver doente se refugiou, mas que fez questão de me avisar para me despedir em vida.
Na semana passada, uma semana depois da morte da minha amiga Claudia, voltei a sua casa para selecionar algumas fotos para uma revista gay (que infelizmente não é a que eu trabalho). Jesus! Meu coração se encheu de lágrimas ao abrir a porta e ver um vazio de espelhos me receber, sem beijos, abraços, sem seu sorriso e sem as novidades de sempre. Somente o perfume doce que ainda pairava pelo ar e um vestido roxo que ela sempre usava jogado cama.
A imagem de Claudia abrindo a porta ainda vive em minha memória. É algo como se pudesse ocorrer amanhã ou depois, ou algum dia.
As constantes visitas e o enlaço de nossa amizade foi tão grande que as fichas certamente demorarão a cair. É por isso que ainda hoje tropeço em palavras e me flagro no costume de ligar para sua casa nas noites de alegria, solidão e novidades.
Divina Aloma

Aos 17 anos, a travesti Divina Aloma começou a carreira no Teatro Rival, Rio de Janeiro. Mas não como artista. Era ela quem vestia estrelas como Ângela Leal, Rogéria e Jeanne de Castro. “Olhava encantada para os espetáculos de transformismo e sonhava um dia estar ali. Trabalhar como vestidora foi mais um meio de entrar na carreira”, declara.
Em 68, Aloma estreou na revista musical “Bonecas em Ritmo de Aventura”, depois “Liberdade para as Bonecas”. E não parou mais. “A gente trabalhava com carteira de artista, pois existia a censura federal. Eles vinham ao teatro, a gente mostrava a carteira e encenava tudo a tarde o que iríamos apresentar a noite”, lembra.
Ao contrário dos atuais shows, os espetáculos da época eram ao vivo e com orquestra. Sua feminilidade e talento, todavia, começaram a desagradar algumas das estrelas. “Elas diziam: Neguinha, não esquece que você sempre será uma vestidorazinha, ein? E eu respondia: Pois saiba que um dia serei melhor ou igual a vocês.”
Baiana radicada no Rio de Janeiro, Aloma veio a São Paulo em 72, através de um cabeleireiro conhecido da época, Gigi, e já começou no universo gay: a Medieval. Nas apresentações, interpretava e dançava as Lady Gagas da época: Elza Soares, Diana Ross, Dona Summer e Gloria Gaynor.
“Em um mês de apresentação, passei a ser a estrela mais aplaudida”, conta ela, que lembra a homenagem de um fã. “Em todas as minhas apresentações, que aconteciam nas terças, quartas e quintas, ele jogava pétalas no palco”, orgulha-se.
Com o sucesso, foi destaque de quatro páginas da importante revista Cruzeiro em 1972, com o nome “Aloma, eu sou uma ilusão”. Uma das apresentações mais marcantes foi quando levou um striptease para a noite gay, o primeiro da casa. “Também tenho muito orgulho de ter tido o ator Raimundo de Souza no corpo do balé”, recorda.
Em 1979 foi para Europa e, quando voltou, em 92, deparou com a febre de drag quens. “Notei que não tinha mais espaço para os artistas da minha época. Mesmo assim, estava disposta a reconquistar o meu espaço.”
Aos 61 anos, Aloma continua brilhando: se apresenta todas as semanas na sauna Fragata e Lagoa, em São Paulo, e esporadicamente em algumas casas noturnas. Para ela, o principal problema das atuais casas gays é a ausência de direção e investimento nos shows.
“A noite começou a cair, os espetáculos também. Hoje as drags vão lá e fazem o que querem no palco. Não é justo encher a casa e pagar 40, 50 reais. Para mim é triste porque eu amo me apresentar, vim de uma época em que travesti era luxo, que ensaiávamos seis meses antes de um número.”
Na comemoração mais recente de sua careira, a artista surpreendeu o público ao tomar banho de cachoeira no palco e exibir um corpo perfeito. “A maior alegria é ter 61 anos e ser chamada de linda, ou então, de ninfeta da terceira idade”, brinca.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Desconstruindo o pênis

Sempre me interessei pelo universo transgênero. Não que eu queira entrar nele como um membro trans, até porque meus poucos cuidados estéticos me levariam a ser uma travesti desleixada, mas sempre achei fascinante a idéia da transformação, além de querer fazer alguma diferença para esse grupo tão discriminado.
Confesso, porém, que pouco me aprofundei na idéia dos Homens Transexuais. Já havia visto alguma coisa, mas nunca conheci ninguém com as características mulher-para-homem. Era sempre o contrário: As travestis e As transexuais. Contudo, nesse último mês, os homens transexuais passaram a ser parte das minhas maiores indagações.
Primeiro, escrevi uma reportagem sobre a infância e adolescência de homens trans para a próxima edição da JUNIOR. Todos eles transexuais, ou para melhor entender (apesar de não gostar de usar os termos) “mulheres que se tornaram homens”. E foi bárbaro, em nenhum momento cogitei estar perto de uma mulher ou de uma sapatão masculina. De fato, estive ao lado de HOMENS. Homens bonitos, cavalheiros e apaixonantes.
Sim, o Sammy (que está na reportagem da Junior) é um amor. Além de bonito, másculo, é extremamente cavalheiro. Chegou a carregar minha mochila pesada, pagou a conta do jantar e me levou até a rodoviária, esperando até o momento do embarque. É claro que da parte dele não rolaria nada – ele estava apenas sendo simpático, tem namorada e gosta de mulher– mas da minha, confesso, que existiria a possibilidade, sim.
“Mas, Neto, ele tem uma vagina!”, escutei de um amigo. E daí? Existem pessoas que, apesar de terem um pênis, não provocam a menor atração em mim. Eu não me apaixono por alguém necessariamente por causa do sexo biológico. O que me envolve é o gênero. O gênero masculino.
Aliás, existe uma brutal diferença entre gênero e sexo biológico. Sexo biológico é aquele que você nasce - pênis e vagina – tendo a exceção para os intersexos (que é outra discussão). Gênero é como você se apresenta para a sociedade (nos moldes masculino ou feminino, tendo a exceção para os andróginos). Por exemplo, uma travesti (aquela que estamos acostumados a ver) tem um pênis. Nem por isso todo gay ou mulher hétero tem vontade de transar com ela. Entende?
Voltando a falar sobre homens trans, emprestei na semana passada o filme Buckback Montain aqui do Mix Brasil. É do ator pornô Buck Angel, um homem transexual. Sim, ele apesar de ser todo bofão tem uma vagina. Confesso que ao ver a contra-capa senti uma certa repulsa. A imagem de homem com vagina (sendo passivo, principalmente) ainda não estava tão nítido na minha cabeça. Até que tive uma surpresa.
Após uma noite mal sucedida, justamente no esquema de gênero (nem toda pessoa com pênis me deixa excitado), coloquei o filme para assistir. As cenas de Buck foram acontecendo lentamente, o que deu para me acostumar com a idéia e, no momento que ele tira as calças e se masturba, eu me excitei. Buck não se masturba como uma mulher, ele se masturba como um homem masculino. Até nas cenas em que é passivo, ele se porta como tal.
Tendo em vista o ponto educativo do filme...hehe...consegui tirar ainda mais o véu que assombra as identidades sexuais e de gênero. Neste caso, não tive que reconstruir uma imagem transgênero, do homem transexual e dos preconceitos que envolvem a minha vivência, mas desconstruir a imagem do pênis como fator decisivo para minha homossexualidade.O mito do pênis. Como se ele fosse a única fonte de prazer, aquilo que há de mais precioso em uma pessoa e em uma relação. Perdoem-me os fissurados na genitália, mas posso dizer que namoraria um homem transexual, sem problemas. O único problema é se eles vão querer, né?
Confesso, porém, que pouco me aprofundei na idéia dos Homens Transexuais. Já havia visto alguma coisa, mas nunca conheci ninguém com as características mulher-para-homem. Era sempre o contrário: As travestis e As transexuais. Contudo, nesse último mês, os homens transexuais passaram a ser parte das minhas maiores indagações.
Primeiro, escrevi uma reportagem sobre a infância e adolescência de homens trans para a próxima edição da JUNIOR. Todos eles transexuais, ou para melhor entender (apesar de não gostar de usar os termos) “mulheres que se tornaram homens”. E foi bárbaro, em nenhum momento cogitei estar perto de uma mulher ou de uma sapatão masculina. De fato, estive ao lado de HOMENS. Homens bonitos, cavalheiros e apaixonantes.
Sim, o Sammy (que está na reportagem da Junior) é um amor. Além de bonito, másculo, é extremamente cavalheiro. Chegou a carregar minha mochila pesada, pagou a conta do jantar e me levou até a rodoviária, esperando até o momento do embarque. É claro que da parte dele não rolaria nada – ele estava apenas sendo simpático, tem namorada e gosta de mulher– mas da minha, confesso, que existiria a possibilidade, sim.
“Mas, Neto, ele tem uma vagina!”, escutei de um amigo. E daí? Existem pessoas que, apesar de terem um pênis, não provocam a menor atração em mim. Eu não me apaixono por alguém necessariamente por causa do sexo biológico. O que me envolve é o gênero. O gênero masculino.
Aliás, existe uma brutal diferença entre gênero e sexo biológico. Sexo biológico é aquele que você nasce - pênis e vagina – tendo a exceção para os intersexos (que é outra discussão). Gênero é como você se apresenta para a sociedade (nos moldes masculino ou feminino, tendo a exceção para os andróginos). Por exemplo, uma travesti (aquela que estamos acostumados a ver) tem um pênis. Nem por isso todo gay ou mulher hétero tem vontade de transar com ela. Entende?
Voltando a falar sobre homens trans, emprestei na semana passada o filme Buckback Montain aqui do Mix Brasil. É do ator pornô Buck Angel, um homem transexual. Sim, ele apesar de ser todo bofão tem uma vagina. Confesso que ao ver a contra-capa senti uma certa repulsa. A imagem de homem com vagina (sendo passivo, principalmente) ainda não estava tão nítido na minha cabeça. Até que tive uma surpresa.
Após uma noite mal sucedida, justamente no esquema de gênero (nem toda pessoa com pênis me deixa excitado), coloquei o filme para assistir. As cenas de Buck foram acontecendo lentamente, o que deu para me acostumar com a idéia e, no momento que ele tira as calças e se masturba, eu me excitei. Buck não se masturba como uma mulher, ele se masturba como um homem masculino. Até nas cenas em que é passivo, ele se porta como tal.
Tendo em vista o ponto educativo do filme...hehe...consegui tirar ainda mais o véu que assombra as identidades sexuais e de gênero. Neste caso, não tive que reconstruir uma imagem transgênero, do homem transexual e dos preconceitos que envolvem a minha vivência, mas desconstruir a imagem do pênis como fator decisivo para minha homossexualidade.O mito do pênis. Como se ele fosse a única fonte de prazer, aquilo que há de mais precioso em uma pessoa e em uma relação. Perdoem-me os fissurados na genitália, mas posso dizer que namoraria um homem transexual, sem problemas. O único problema é se eles vão querer, né?
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